Se você está participando ou acompanhando a quarta revolução industrial (comendo pipoca no camarote), já deve ter percebido algumas coisas como essas as abaixo:

1.      As startups, fintechs e as “xTechs” não sabem o que é “modelo tradicional”, assim como meus sobrinhos não sabem que já existiu uma vida sem Smartphones;

2.      Algumas grandes empresas fingem que alteraram o modelo só para se passar por “cool ou hype” nos eventos, dizendo que estão fazendo transformação digital / organizacional (quando nem sabem o que é isso);

3.      Outras empresas acham que tudo isso é “modinha”, já viram iniciativas como essas nascerem e morrerem;

4.      Muitas grandes empresas estão desesperadas, pois já estão percebendo que estão perdendo mercado para concorrentes mais rápidos, mais tecnológicos, mais baratos e com estruturas infinitamente mais enxutas;

5.       Algumas grandes empresas já começaram a realmente se movimentar de forma estratégica para este “novo modelo”.

Claro que tenho percebido isso a muito tempo, inclusive este é meu quarto artigo sobre a saga da transformação digital e organizacional, porém este será o primeiro artigo com um viés diferente, viés de como executivos estão lidando com este trauma, com esta perda, com esta tragédia.

O “modelo de gestão tradicional” não vai morrer daqui 5 anos. Ele já morreu. E estamos vivendo um momento de luto que, quando muitos “se derem conta” e acordarem pode ser tarde para “tocar a vida”.

Eu estava lendo semana passada sobre os 5 estágios do luto que é um modelo criado por Elisabeth Kübler-Ross em 1969 que é conhecido como Modelo de Kübler-Ross (https://pt.wikipedia.org/wiki/Modelo_de_K%C3%BCbler-Ross).

A proposta de Elisabeth é que existem cinco estágios discretos pelos quais as pessoas passam ao lidar com a perda e/ou tragédia. Eu trarei estes 5 estágios para o mundo corporativo e vocês poderão verificar se existe alguma semelhança.

Este modelo não possui uma ordem lógica, muitas pessoas (empresas) não passarão pelos 5 estágios, mas segundo Kübler-Ross, uma pessoa (empresa) passará por pelo menos 2 estágios.

 Vamos aos estágios:

1.      Negação: “Isto não pode estar acontecendo agora, não comigo, não bem na minha vez”

2.      Raiva: “Não é justo”

3.      Negociação: “Vamos tocando pra ver onde isso vai dar”

4.      Depressão: “Já era, agora é tarde demais, não vale a pena mais se preocupar”

5.      Aceitação: “Vai tudo ficar bem, não tem como remar contra a maré, precisamos realmente de uma mudança”

Estes estágios são facilmente reconhecidos em pessoas que perderam alguém que ama, porém acredito que da para percebe-los na atitude das empresas frente a indústria 4.0. Se você não percebe na empresa, pelo menos os gestores que participam de reuniões mais estratégicas já viram isso no: Conselho, CEOs, VPs, Diretores, Superintendentes e todo mundo aí do meio da escadinha pra cima.

O primeiro estágio é a Negação.

Neste estágio a executivo se nega a acreditar que o fato realmente aconteceu. Se nega a acreditar que métodos ágeis funcionam, se nega a acreditar que isso pode ser feito na empresa inteira, se nega a acreditar que o mercado mudou, se nega a acreditar em transformação. Existe uma dor do desconhecimento que afeta diretamente o orgulho. Por isso, para não ter que encarar o fato, a realidade de “eu não sei o que fazer agora”, o melhor caminho é negar que isso esteja acontecendo e assim desmerecer quaisquer iniciativas que virem de dentro do time.

Em muitos casos na negação o executivo até traz exemplos de fracassos para dentro da empresa para esfriar a vontade do time de fazer diferente.

O segundo estágio é a Raiva.

Neste momento o executivo já percebeu que aconteceu o inevitável, que não tem mais o que fazer. O modelo que ele usa está de fato morto.

Aí vem o momento de revolta. Afinal o concorrente esta melhor por estar mudando, tem um novo entrante no mercado a cada 2 meses, todo evento que ele vai fala disso (até aquele evento em Las Vegas/Nova York que era mais uma desculpa pra passear e comprar um iPhone/Mac novo, só falou de transformação).

Mas ainda assim existe uma raiva muito grande em ter que lidar com isso.

Sempre foi assim, sempre funcionou.

 O terceiro estágio é a Negociação.

Neste estágio o executivo já está disposto a ceder, já está negociando com ele mesmo.

Nesta fase, geralmente o executivo já se abre pra uma consultoria, já gasta algum dinheiro para aliviar o ego, pra falar nos eventos que está se transformando.

Geralmente nesta fase o executivo deixa a consultoria trabalhar à vontade para MUDAR TUDO desde que NÃO MUDE NADA.

Aí nascem as aberrações, afinal o executivo não está preparado, não está engajado, não está a fim da mudança, mas precisa reagir. As “consultorias” que estão no mercado vão na linha “topa tudo por dinheiro” e voltamos ao modelo de “faz de conta que me engana e eu faço de conta que acredito”.

Nesta fase a empresa começa a mudança, que muda só coisas irrelevantes, porém não muda nada de pilares, valores, hierarquia, estrutura, modelo e cultura.

É chegado o momento de: Sofá colorido, Post-it, Kanban em todas paredes, ping-pong, vídeo game e os mais ousados colocam até bilhar e cerveja.

O quarto estágio é a Depressão.

Neste estágio o executivo já se sente impotente, fraco e triste frente a complexidade da transformação. Geralmente é a etapa mais longa. Nesta fase ele nem da muita atenção para as ações nos departamentos. Ele continua pagando a consultoria, mas nem acompanha mais.

Viu que no prazo de 1 mês não mudou, logo já está quase voltando pra negação, ele só não volta por conta do mercado, concorrentes, eventos, revistas e toda a pressão externa.

As vezes a empresa passa anos na depressão. A depressão consiste basicamente no modelo antigo, porém com algumas poucas práticas da indústria 4.0, só que isoladas e sem resultados efetivos.

A depressão é o estágio que as “tipo consultorias” amam. Afinal eles têm fotos de treinamentos, cases nos eventos, paredes coloridas nas fotos, infraestrutura linda que incentiva a criatividade e tudo isso em grandes empresas.

Isso é um marketing lindo! Já vi muitas “tipo consultorias” que “fizeram transformação” em empresas que anos após a “transformação” acabar, continuam iguais.

Mas no “case” das consultorias, as empresas viraram verdadeiros unicórnios do Vale do Silício, Inovação, Alta Performance, Gestão 3.0, Scrum Escalado, NASA e tecnologia de ponta. Da até orgulho, escorre até uma lágrima (pena que é tudo faz de conta).

Só os funcionários da empresa sabem da vida real. Na empresa ainda existe um modelo hierárquico, time não tem voz ativa, mistura de cargos com papéis e atribuições, executivos longe do chão de fábrica, eterna disputa política interdepartamental, cobrança de status de projetos verde, bônus em cima de “projetos entregues verde”, burocracias sem fim, gestão de mudança engessada e todas as práticas de 1920, porém com Post-it, Agile Coaches, Consultorias e Sofás Coloridos.

O quinto e último estágio é a Aceitação.

Sabe o popular “aceita que dói menos”? Pois é, esta fase é muito importante. É a fase marcada por respirar fundo, tomar decisão analítica e não emocional, ser sóbrio e agir com consciência.

Vejo poucas empresas na aceitação. Na aceitação você reconhece que precisa de ajuda, busca gente qualificada, faz um plano efetivo, não tem orgulho em aceitar que fez errado e de jogar fora e refazer todas as “iniciativas” anteriores.

Geralmente nesta etapa o executivo percebe que jogou caminhões de dinheiro fora sem nenhuma efetividade, porém não fica tão triste com isso, pois acredita que era necessário passar por tudo isso para amadurecer o processo.

E agora JB? Como faço para não passar por tudo isso?

Como vou superar a morte da TI tradicional e da gestão tradicional?

A receita é complexa e vai variar de cada estágio e cada empresa/cultura, mas vou ousar dizer alguns passos importantes.

1.      Protagonize a mudança, seja a mudança.

Todo executivo/C-Level precisa protagonizar a mudança. É o tipo de coisa que você não delega. Ou você entra de cabeça ou sua empresa nunca será.

2.      Procure gente qualificada

Imagino que você tem gente boa na empresa, reconheça eles, mas reconheça quando você não tiver o skill adequado também. Contrate direito, demita direito. Transformação exige mais coragem do que orçamento.

3.      Aprenda com os erros e não se sinta culpado

Admita erros, principalmente para o time abaixo de você. Transformação exige participação e humildade. Não se culpe por não ter acontecido como você acreditou que aconteceria, faça diferente agora, ouça os times.

4.      Invista em capacitação

A maioria das empresas dá um “novo papel” pra um colaborador sem a devida capacitação e mapeamento de skill. Resultado? Fracasso. Capacite a empresa toda, capacite os times, evite Torre de Babel onde cada um fala uma língua diferente.

5.      Busque ajuda

Procure uma consultoria de verdade e comece uma real transformação, lembrando que o CEO tem que protagonizar, assim como TODOS executivos. Transformação organizacional deve vir do RH/C-Level, deve impactar toda a empresa, precisa trabalhar a cultura. NÃO EXISTE TRANSFORMAÇÃO SÓ DA TI.

Acho que são bons pontos para se livrar ou até nem entrar nos estágios do luto.

Mas não ignore os fatos de que as mortes já ocorreram.

Chore um pouco, mas enxugue as lágrimas, de a volta por cima, recomece e se reinvente.

Quer ajuda? Manda no inbox, posso te ajudar e posso te indicar caminhos e empresas para a real transformação.

Compartilhe, comente, curta, vamos trocar experiencias sobre o estágio das nossas empresas!

Forte abraço,


João Batista

João implementou seu primeiro projeto com Scrum em 2009

Criador do primeiro time Scrum em banco no Brasil

Trabalhou como SM, PO e Membro de Time do Desenvolvimento. Atualmente CTO de Fintech e parte do time de transformação organizacional da Massimus

MBA Gestão estratégica de TI (FGV), Pós MBA Inteligência Empresarial (FGV), MBA em Negócios Internacionais (Universidade da Califórnia, Irvine)

Leader Coach

Certified Agile Coach (CAC)

Certified Scrum Master (CSM)

Certified Scrum Product Owner (CSPO)

Certified Scrum Developer (CSD)

PMI-PMP

https://www.linkedin.com/pulse/%C3%A1rea-de-tecnologia-e-o-modelo-gest%C3%A3o-tradicional-em-batista-santos/

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