Por João Batista*

CTO | Transformação digital e Organizacional l Agile Coach | Product Owner |Scrum Master

Se você é de TI, leu o título e já pensou palavras de baixo calão sobre mim ou até sobre minha mãe, peço que respire, se acalme, conte até dez. Vou me explicar melhor. Pega um café ou uma água (eu pegaria os dois) e vamos falar sobre transformação digital/organizacional (chamarei a partir de agora apenas de “transformação digital” pra não ficar escrevendo sempre digital/organizacional como está no título).

Fiquem tranquilos quanto a parte do título que diz “chegou o fim da área de TI”, calma, não é o apocalipse zumbi dos desenvolvedores que está chegando, mas posso te garantir que a transformação digital traz com ela o fim da área de TI como nós a conhecemos hoje e como nós trabalhamos hoje.

Para começar a falar de transformação digital, vamos primeiramente desmistificar o que é a transformação digital e simplificar o tema.

Uma analogia rápida da transformação digital que podemos fazer com nosso momento atual brasileiro é com a política. Sabe esse papo de que temos que acabar com a “velha política” e temos que partir para a “nova política”? Privatizar, transformar, acabar com a burocracia? Então, transformação digital é “tipo isso”, mudança de cultura, forma de pensar (ou mudança de mindset se você gosta de termos pop). Nosso modelo organizacional funcionou bem até aqui, assim como a “velha política”, mas não será este modelo que nos levará para o próximo grande passo. Afinal, fazer gestão de capital intelectual nos dias de hoje da mesma forma que se fazia em 1920 através da forte hierarquia para uma linha de produção, não deve ser a maneira mais adequada né?

Transformação digital = “Startuptização” das empresas e a “deshierarquização” das empresas.

Eu acho que inventei essas palavras se alguém já escreveu isso antes e eu não referenciei me perdoe.

O que é a transformação digital:

  • Transformação da cultura;
  • Transformação na forma de pensar (mindset?);
  • Transformação do modelo de gestão;
  • Empoderamento dos times;
  • Transformação da estratégia;
  • Uso e protagonismo da tecnologia estratégica;
  • Transformação na Experiencia do cliente (KYC), consumidor no centro;
  • Transformação de processos;
  • Transformação dos modelos de negócios;
  • Transformação estrutural;
  • Tecnologia e negócios sendo uma coisa só;
  • Inteligência e transformação analítica, tudo baseado em dados (in god we trust all others must bring data);
  • Entre outros.

O que não é a transformação digital:

  • Metodologias ágeis (são ferramentas);
  • Framework Scrum (é ferramenta);
  • Revolução do Post-it como se fosse a nova revolução industrial 5.0;
  • Troca de cronograma por Kanban;
  • Ambientes coloridos com puffs e abertos (é até legal e ajuda criatividade e inovação);
  • Mesa de ping-pong, bilhar ou videogames na empresa (é legal também);
  • Hackathon (é muito legal também, mas é ferramenta);
  • Canvas;
  • Bala de prata que transforma a empresa utilizando Scrum com SAFe (medo, medo, mais medo);
  • Troca de Project por Jira;
  • Spotfyzação da empresa;
  • Entre tantas bizarrices que vemos por aí.

Acho que deu pra ter uma ideia do que é transformação digital/organizacional né?

O problema é que quando você entende, você se da conta que a transformação é no núcleo, no “core”, na cultura, na espinha dorsal das empresas. Não é em ferramenta, não é em método, não é em processo, não é em softwares (mesmo também sendo em tudo isso).

Imagina ter que desconstruir uma cultura enraizada em todos os profissionais (principalmente gestores e executivos) por tantos anos.

Pensa naquele cara de trinta, quarenta e poucos anos que sonhou com a sala da diretoria, andar do presidente, ter muitos funcionários abaixo dele, (sim quantidade de cabeças importa para poder e status como se fosse gado) de repente descobrir que agora (BEM NA MINHA VEZ) isso deve ser totalmente alterado para ter competitividade, resultado e conseguir concorrer com as startups, FinTechs, AgriTechs, HealthTechs, RetailTechs e todos os techs que existem por ai e outros que ainda virão. Não é nada fácil.

Isso não explicou nada JB. Por que a TI como nós conhecemos deixará de existir?

Pelo mesmo motivo que a “área de negócios” (área que nós de tecnologia chamamos de cliente) também deixará de existir. What a fuck hell is this, JB?

Se houver uma real transformação digital essas duas áreas juntas se chamarão TIME.

Imagina o mundo de “Alice no país das maravilhas corporativas” onde não existem mais frases como essas:

  • “O projeto atrasou por causa da TI”;
  • “Os requisitos não foram bem feitos pela área de negócios”;
  • “Como entregar? O cliente muda o escopo toda hora”;
  • “O projeto estava verde o tempo todo e só na semana da entrega descobrimos que vai atrasar 3 meses e custar R$ 1.000.000,00 mais caro?”

Neste mundo de Alice, Tecnologia e negócios pensam em entregar o melhor para o cliente da empresa (consumidor final) respondendo a quaisquer mudanças (interna, externa, cenário, jornada etc) em tempo real.

Quem é o coordenador deste time? Quem é o gerente deste time? De qual diretoria é este time? Onde vivem? Do que se alimentam? MEU DEUS E AGORA? Seria o fim do feudalismo corporativo?

Agora imagina que este mesmo time é responsável por sustentar os produtos que cria, afinal nada mais justo, eles que são os maiores conhecedores do produto. Parece fazer mais sentido do que passar o NABO bastão para o time de sustentação.

PRONTO AGORA NEM A SUSTENTAÇÃO VAI EXISTIR?

EXATAMENTE! Tudo isso é desperdício.

O problema é que alguém (alguma entidade, sei lá, Deus) atribuiu a transformação digital/organizacional para a área de Tecnologia da Informação (isso está mudando thank God).

É como definirmos que quem ficará responsável em pesquisar a cura do câncer serão as empresas que desenvolvem remédios para tratar o câncer. NÃO FAZ SENTIDO.

Transformação tem que vir do CEO, conselho, presidente, Deus…

Logo:

As startups vão atropelar quem não se transformar, exatamente porque na startup tem meia dúzia de gente verdadeiramente trabalhando junto, como um TIME que se comunica.

E pra você que não acredita que desenvolvedores entendem de produtos e colaboram efetivamente para o resultado dos negócios, vale lembrar que: Steve Jobs, Bill Gates, Elon Musk, Mark Zuckenberg, João Batista Santos (foi engraçada vai?) já foram desenvolvedores.

As startups já são diferentes da “velha política”. Grandes empresas fazem reunião para alinhar a próxima reunião. Alinhamento do pré-alinhamento para o alinhamento da apresentação para o comitê, (onde será reportado mentiras, mas todo mundo já tem que saber antes).

Sabe o modelo onde você tem que pedir pro gerente ligar, coordenador ligar, diretor mandar e-mail senão a outra área nem te responde? Camada de gestão e governança gigante e o time que é responsável em desenvolver muitas vezes nem é da empresa, trata-se de um terceiro que não vive o negócio? Isso é o velho modelo!

Dê o crachá do CEO para o time por 1 dia para falar sobre roadmap e até de estratégia e você terá provavelmente seu melhor roadmap.

Chega de discórdia. Em resumo:

A área de tecnologia obviamente não vai acabar, mas tende a se transformar com a transformação digital e praticamente se fundirá com a área de negócios. E para isso muita coisa PRECISA mudar. Se não começou a mudar na sua empresa veja se o problema não é você. Em breve só existirão dois tipos de funcionários nas empresas, os engajados na transformação e os que atualizam o LinkedIn.

Vou colocar aqui o link de um vídeo onde o meu amigo e autoridade de agilidade no Brasil Heitor Roriz entrevista o co-fundador do Scrum Jeff Sutherland. Veja o que o co-autor do manifesto ágil pensa sobre o futuro das companhias que não se transformarem: https://www.youtube.com/watch?v=yFfT6UIFjuo&t=4s

E aí você está disposto a mexer na espinha dorsal da empresa? Quer transformar a sua empresa de verdade? Não tem medo de perder o “poder” o “status” e o “gado”?

Se a resposta for SIM, estamos juntos! Coloque as luvas, calce as botas e o capacete para não se machucar e vem comigo para o chão de fábrica.

Ps. O objetivo aqui não é desmerecer métodos, frameworks, tecnologias e softwares. Todos eles são muito importantes e fazem parte do futuro e da transformação. A ideia é dizer que “só isso” não é transformação, mesmo que seja um passo importante.

Forte abraço,

JB


João Batista

João implementou seu primeiro projeto com Scrum em 2009

Criador do primeiro time Scrum em banco no Brasil

Trabalhou como SM, PO e Membro de Time do Desenvolvimento. Atualmente CTO de Fintech e parte do time de transformação organizacional da Massimus

MBA Gestão estratégica de TI (FGV), Pós MBA Inteligência Empresarial (FGV), MBA em Negócios Internacionais (Universidade da Califórnia, Irvine)

Leader Coach

Certified Agile Coach (CAC)

Certified Scrum Master (CSM)

Certified Scrum Product Owner (CSPO)

Certified Scrum Developer (CSD)

PMI-PMP